sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tens uma maneira esquisita de falar

Passei toda uma vida a pensar que falava de forma "normal". Sem grandes sotaques, sem grandes problemas em pronunciar palavras e frases. Até começar a estudar em Lisboa. E depois a trabalhar. Como certamente já devem ter percebido eu não sou de Lisboa, sou de perto, mas sempre vivi fora da cidade e estudei até ao 12º numa vila mais ou menos perto. Aos 17 anos fui para a faculdade em Lisboa e até hoje continuo por cá praticamente todos os dias (apesar de continuar a viver fora daqui). Isto para dizer que até ter um contacto tão directo com a capital, nunca tinha percebido que tenho uma maneira esquisita de falar. É verdade. Até então ainda só tinha percebido que as minhas colegas não conheciam palavras como "cruzeta", "garganeira" ou "magano". Palavras bastante utilizadas no Alentejo de onde é TODA a minha família. Até ter ido para a faculdade e ter sido corrigida vezes sem conta quando dizia "tênhamos" em vez de "tenhâmos" e "póssamos" em vez de "pussamos" (escrevo assim para que entendam). Apercebi-me então que tinha passado toda a vida a falar mal — assim como toda a minha família. Corrigi, hoje em dia já digo quase sempre bem, sendo que tenho de pensar um bocadinho. Mas depois comecei a trabalhar e até hoje continuo a perceber que digo várias coisas "mal". Quase todos os dias sou gozada pela maneira como falo e corrigida. Não é que me incomode muito atenção, sei que é a brincar. Mas não deixa de ser estranho entender finalmente que tenho qualquer espécie de pronúncia que se nota por aqui. Muito pelas influências de toda a minha família que para além de ser do Alentejo, é de Elvas, uma cidade muito próxima de Espanha — de onde vem toda uma panóplia de palavras e formas de falar que eles apanharam e eu também. Isto porque muita gente pensa que eu sei falar Espanhol porque vivi em Madrid, mas a questão é que eu já sabia falar muito antes disso. Passei as minhas férias todas durante a infância e adolescência em Espanha, por isso aprendi naturalmente. Posto isto, apesar de não me incomodar grande coisa gostava imenso que parassem de me chatear com a forma como falo. Se não, voltarei ao meu registo caladinho, que tanto gosto.

8 comentários:

  1. Só depois de adulta é que entendi que havia imensas palavras que pronunciava mal porque era assim que se dizia na minha família. E depois descobri que tenho um sotaque portuense, apesar de eu não achar que se nota assim tanto. Enfim. Coisas que só percebemos quando contactamos com pessoas de outras naturalidades. Às vezes tenho que fazer o esforço consciente de dizer certas palavras, mas nada que me atrapalhe a vida.

    Agora fiquei curiosa para te ouvir! :)

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    1. Tu tens mesmo sotaque do norte, sem dúvida! O meu provavelmente não ias notar nada, é só mesmo em certas palavras :)

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  2. Agora imagina a minha vida, que sou madeirense a viver no continente há mais de 12 anos =)!
    Com o tempo aprendi que certas palavras que uso são regionalismos e eu não fazia ideia disso (e deixei de usá-las para não ter que explicar sempre o que estou a dizer), há sempre palavras que pronuncio de forma que faz rir as pessoas porque acham engraçado (confesso que não é a sensação mais agradável do mundo, sinto-me um bocado animal no circo, mas sei que não é por mal) mas por outro lado também há quem me diga que não tenho sotaque (não sei se é por estranharem o facto de perceberem tudo o que eu digo :p, mas eu tenho sotaque sim).

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    1. Imagino! Mas se calhar as pessoas como sabem que és da Madeira já não estranham quando dizes algo "estranho". Eu é como se fosse Lisboa, as pessoas esperam que eu fale de forma "normal" :P

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  3. Nasci em Lisboa, sempre vivi por estes lados mas os meus pais são transmontanos de gema, assim como o resto da família. E sempre achei que não tinha sotaque. Mas a verdade é que cá, destacam que de vez em quando em mando uma posta transmontana. Quando vou para cima, é o meu sotaque lisboeta que atrai. Afinal temos todos sotaques, não é?

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    1. Parece-me mesmo que sim, e nenhum deles é o correcto! Apesar do que às vezes se pensa :)

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  4. Mas é por isso que o contacto com pessoas de fora é importante, dá-nos a oportunidade de melhorarmos :D no entanto, uma coisa é dizer mal... Outra é o sotaque. Eu, quando fui para a faculdade, dizia "ainda bêm" (à alentejano, mesmo) e isso não é um erro, é pronúncia. Tal como o nosso português e o dos brasileiros difere nisso... Isto também me aconteceu com imensas palavras e expressões, a pior para mim foi quando percebi que era O esparguete e não A esparguete. Toda a gente na minha família e zona diz "a", possivelmente porque é "a massa", não sei. Ainda hoje não consigo evitar esse erro... Por isso construo as frases de forma a evitar o artigo :P Ah, e ri-me com o "magano", "cruzeta" e "garganeira", porque sofri do mesmo com as mesmas palavras - 4 anos depois de já estar em Lisboa, a minha mãe chamou-me magana no skype e uma colega minha ficou só "wtf?".

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  5. Eu sou uma alentejana que vive no algarve como tantos outros. A questão é que me irrita que os meus amigos que também saíram da região (alentejana) tentem à força toda perder a pronúncia. Cada vez que ouço um deles dizer "tambaim" apetece-me cravar-lhe uma bofetada que o viro do avesso. Nós dizemos "bêm", "bombêiro" e "nã temos vagar" para largar isto que é tão nosso. Na empresa onde trabalho todos me pedem que não largue este regionalismo que me identifica, e eu agradeço-lhes sempre o carinho :)

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