quarta-feira, 15 de junho de 2016

Até onde vai a tua memória?

No outro dia dei por mim a tentar recordar-me qual a memória mais antiga que tenho. Memória mesmo. Nítida, vivida e sentida ainda hoje pelo meu corpo. Não aquelas memórias de momentos que sabemos que aconteceram porque já nos contaram vezes sem conta. Eu tenho 25 anos e a minha memória vai até ao dia em que a minha primeira avó morreu. Junho de 2001. Eu tinha 10 anos e a minha avó tinha ficado doente de repente alguns meses antes. Toda a minha família é do Alentejo, mas a minha avó estava num hospital em Lisboa, por isso muitos familiares estavam instalados em minha casa. Naquele dia, a minha mãe recebeu uma chamada e eu sabia perfeitamente o que significava. Lembro-me como se fosse hoje dela entrar na sala, eu olhar para ela e ela dizer apenas isto: já está. Não foi preciso mais nada, eu já sabia o que tinha acontecido. Lembro-me do que senti, de toda a confusão na minha cabeça. O que vai acontecer agora? Nunca mais a vou ver? Nem falar com ela? Nada disso fazia sentido para mim. Mas eu sabia que era isso que tudo aquilo significava. Não me lembro da última vez que a vi ou falei com ela. Lembro-me de pensamentos soltos, recordações vagas, mas nítido e tão sentido como isto, esta é a recordação mais antiga que tenho. Depois disso não me lembro muito bem dos acontecimentos, sei que não fui ao funeral porque era muito nova, sei que nunca mais a vi e isso custou-me muito. Foi neste momento que perdi a primeira pessoa importante da minha vida, o que me levou a perceber a dor da morte. Foi aí que percebi que ia acabar por perder todas as pessoas de quem gostava e isso foi o maior murro que me lembro de levar. Tenho pena que, quando a minha memória recua, vá até um momento tão doloroso, mas quando os sentimentos são mais marcantes, lembramo-nos melhor das coisas. É o que acontece comigo. A parte boa é que aprendi a lidar de uma forma matura com estes sentimentos e estas recordações. Falar sobre isto ajuda. Foi por isso que me lembrei de partilhar isto convosco e agora vos pergunto: até onde vai a vossa memória?


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