terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Inacabado

Há esta ideia de que algo inacabado é necessariamente mau. Pois eu acho que é uma ideia errada. As pessoas pensam numa coisa inacabada como algo que não foi cumprido, como algo que ficou a meio, que não tiveram coragem de levar avante. Como daquela vez em que se inscreveram num ginásio durante um ano e deixaram de ir na segunda semana. Ou quando aceitaram ajudar alguém e deixaram tudo a meio. Ou quando começaram a tirar um mestrado que se ficou pelo índice da tese. Inacabado é algo que não se acaba, que fica perdido algures no tempo, que alguém se esquece que existe e segue em frente. Sem olhar para trás. Inacabado. Aquelas aulas de Francês que começámos a ter e onde eventualmente só aprendemos a contar até 10. O bolo que ficou a meio, sem chegar a ir ao forno. A estante que está sem prateleiras, na arrecadação, à espera de ser terminada. O livro que ficou por escrever, a meio da história. Eu tenho esta mania de ver as palavras, imaginar exactamente o que elas significam para mim. Se as pessoas forem assim e olharem para a palavra "inacabado" o que será que vêem? Uma circunferência que ficou a meio. Metade de uma ponte. Uma casa sem cor e sem janelas, ainda cinzenta e à espera que alguém se lembre dela. Eu? Eu olho para a palavra "inacabado" e penso que é tudo o que quero. Quero uma coisa que não acabe, que não tenha o seu inevitável fim. Porque tudo acaba, dizem as pessoas. Eu não acho. Não quero acreditar nisso. Nem tudo tem de ter um fim, certo? As coisas mudam, não quer dizer que acabem. Eu quero algo inacabado, que não acabe, sem fim, para sempre.

1 comentário: